sábado, 17 de outubro de 2009

soprando a poeira cósmica

quantas arestas nessa biblioteca de intimidades!

vou buscar aquilo que não me pertence disposta a arrancar de mim palavras, como quem arranca uma perna e sorri pensando que outra crescerá no lugar.

entrego as palavras como quem cospe no chão. algumas sobram presas aos lábios e presas ao mundo, como porcaria combinada entre nós.

releio esse eu ressecado na calçada, sou eu mesma? me espanto, me admiro, me envergonho.

costumava brincar de ser poeta.

inventar modismos, traçar (des)encontros íntimos. enganar o sol, fazê-lo erguer-se pensando que é dia.

"poderes cósmicos fenômenais.... dentro de uma lampadazinha" - eita infância.


o que sobrou do silêncio dos tempos últimos é a vontade de ter algo a dizer mas sem saber exatamente o que nem como nem se é isso o que dizer talvez se simplesmente jogar as letras mais ou menos organizadas em palavras e sentidos possa permitir a quem vier ter sua experiência sem medo de não gostar não querer não compartilhar ou então que se retirem todas as negatividades para que tudo pareça o exato oposto do que foi dito já que hoje não é o dia da terra mas o dia da água do fluído da lágrima do perder-se em meio a mariscos e ostras e sereias ou ainda dia que se volve noite já que sob águas profundas não há se não dias que o sol não alcança peles cuja cor é sem-cor seres que sendo secos são molhados
ffffffffffffffffffffffffffffffffffffffffffffffffffffffffffffffffffffffffffffffffffffffffffffffffff
o que sobrou
do silêncio dos tempos
últimos é a vontade de ter algo a
dizer mas sem saber exatamente o que nem
como nem se é isso o que dizer
talvez se simplesmente jogar as letras mais ou
menos organizadas em palavras e
sentidos possa permitir a quem vier ter
sua experiência sem medo de não g
ostar não querer não compartilhar ou
então que se retirem todas as negatividades para que tudo
pareça o exato oposto
do que foi dito já que hoje não é o dia
da terra mas o dia da água
do fluído da lágrima do
perder-se em meio a mariscos e ostras e
sereias ou ainda dia que se volve noite já que sob
águas profundas não
há se não dias que o sol não alcança
peles cuja cor
é sem-cor seres que sendo secos
são molhados

sábado, 5 de julho de 2008

o que é um atraso entre nós?



Alguns dias me separam de um compromisso poético: atraso! Mas o que é essa falha perto dos 23 anos de atraso em relação a esse amor? E dos 23 que ainda nos esperam? Como estamos atrasados!
O que são esses dias perto dos tempos escondidos em cada sorriso cúmplice? Das nossas conversas napoleônicas? "Eu sou napoleão!", "Não, eu sou!" - Malucos e conquistadores, seguimos.

E as músicas? Quanto tempo deixamos expressos nos olhos que se fecham para conhecer o outro nos acordes. São rugas! E rugas são anos e anos...

E as brigas? não não, essas nos envelhecem mais ainda.... por que nos permitem conhecer melhor um ao outro (mesmo que da pior maneira).

E os pequenos gestos? São muitos, então podemos dizer que são grandes por que formam um grande Leviatã das nossas pequenas coisas, sedimentado com um líquido que tem gosto de limonada.

E os nossos cinco minutinhos? Duram uma eternidade.... e são tão poucos....

Tem ainda os nossos doces, pizzas, cinemas, filminhos, programinhas de família, viagens (hoje ainda vamos para uma dessas)... Acho que somos uma vida, viu?!

É, tudo bem, desculpe o atraso em cumprir o compromisso poético, antes tarde do que nunca! Pra te escrever, pra te amar, pra você ser o "ovinho" e eu a "fofinha".

domingo, 8 de junho de 2008

Marshmallow world



- Oi mãe, até que enfim se lembrou de mim.
- Ora, você é que é nova e precisaria se lembrar da velha aqui.
- ... E como estão as coisas?
- Bem, sua irmã bateu o carro ontem.
- ! Bateu? Como?
- Bateram nela
- Está tudo bem?
- Sim, tudo bem...
- Mãe, por que você não escreve um diário, algo que possa colocar suas lembranças?
- Ora, elas são minhas, não quero que ninguém as veja.... eu tive um diário uma vez, destrui.
- !? Por que?
- Não queria que ninguém soubesse... já vi muitos filmes com diários, depois a pessoa morre e todo mundo passa a julgá-la.
- Mas um diário seria algo seu no mundo...
- O que é meu eu vou levar comigo quando for...
- Mãe... bem, no mais tudo bem?
- Tudo...
- E o diário? Vai fazer?
- Bem, vou desligar aqui então
- Ok. Diga para o pai fazer um diário também....
- Não direi.
- Bem, boa noite então... amanhã eu ligo.
- Sei.


Eu penso que o Brasil agora vende aviões de guerra para os EUA se divertir no Iraque. E lembro também da história de que quando a gente morre toda nossa vida passa diante dos olhos. Sei da história de um rapaz que viu sua vida toda como olhos brilhantes, angustiados, que deviavam de sua direção... sua infância, seu primeiro beijo, as brigas na escola, a saudades do campinho de futebol no terreno abandonado, o primeiro emprego como motorista, a filha que teve com 21, o casamento às pressas.

Lembro como as luzes vinham e se aceleravam enquanto ficavam mais próximas. Os olhares brilhantes esquecidos e reacesos para passar a vida toda diante do motorista. Os bailes de sábado, a melancolia do dia seguinte. As vergonhas e os orgulhos... e finalmente a angústia.

E finalmente, seu corpo e sua vida colididos com os grandes olhos-faróis de um caminhão. Sua história dirigida, toda diante de si, embaixo de um caminhão na Anhanguera.

E a trilha sonora de Sinatra:

It's a marshmallow world in the winter
When the snow comes to cover the ground
It's the time for play, it's a whipped cream day
I wait for it the whole year round.

Those are marshmallow clouds being friendly
In the arms of the evergreen trees
And the sun is red like a pumpkin head
It's shining so your nose wont freeze.

The world is your snowball, see how it grows
Thats how it goes whenever it snows
The world is your snowball just for a song
Get out and roll it along

It's a yum-yummy world made for sweethearts
Take a walk with your favorite girl
It's a sugar date, what if spring is late
In winter it's a marshmallow world.


Oh, yeah

domingo, 18 de maio de 2008

espalhos (21 e meio)



Ele suspira sempre. Traz o que é duro e doce.
Respira a mente. Antecede o beijo, adormece a lágrima.
Confunde a intenção, troca os olhares.

O melhor olhar é o que se dirige ao primeiro ruído.
Sentir mais, mesmo que por menos tempo.

É essa coisa maravilhosa que preenche a dor
Chove em mim.
E depois seca ao sol tudo o que existe.

domingo, 27 de abril de 2008

Como formigas



Pequeninas, sozinhas ou acompanhadas, percorrem com uma rapidez incrível as lajotas.
Caminhos semelhantes, podendo se modificar no meio, mas nunca no início e no fim.
Carregam nas costas as que sucumbem no trajeto.
Sofrem a busca de um destino mais ou menos incerto.

Habitam construções próprias entre árvores, rios, montanhas, asfalto.
São capazes de veneno, e tendem particularmente ao açúcar.
Se agitam, se tranquilizam. Se nascem, se morrem.

Se reproduzem.

Assim vivem as pessoas. Com a diferença de que, nos intervalos, se faz o amor e a Biologia.

Intervalas, portanto. Infinitamente fundas.

terça-feira, 15 de abril de 2008

Leia, por favor.




Sentado para o café das cinco, resvala os dedos distraídos numa pequena folha de papel dobrada: "Leia, por favor".

Se espanta e nem percebe a queimadura na ponta da língua precipitada pelo líquido quente. "Leia, por favor".

Ri no canto dos lábios da cordialidade misteriosa da inusitada ordem: "Por favor? Como pode o mistérios solicitar favores, penetrar assim no livre-arbítrio? O mistério nã0 seria a contradição do que é livre, do que é projétil, projeto? Como pode o misterioso ser cortês?"
Imediatamente aproxima o enigma dos olhos e, como que embaçando a visão, tenta resistir colando a folha de papel na testa com a mão: "Leia, por favor" - agora na fronte do pobre.

"Mísero! Você pensa que me engana pedindo favores! Acha que não sei do poder tentador de sua ordem que simula minha vontade? Sabes muito bem que dos mistérios eu me interesso, me espanto, me acordo, me sonâmbulo" - gira a folha, pretendendo abri-la.

"Não! Caia fora, me deixe tomar o café" - larga sobre a mesa o mistério e se vira para olhar ao redor.

Da janela, olha as pessoas desconhecidas da quais conhece o nome. Pensa "por que diabos a memória guarda palavras que não aproximam as coisas do seu sentido?". O que diz o nome sobre a pessoa que não conhceço? Aliás, a origem do nome precede a existência das pessoas: "João, Maria, José - O que fizeram para merecer esses e não outros vocativos?"

Observa como as pessoas cujos nomes não lhe diz muito poderiam ser conhecidas pelas impressões que causam, assim como fazem alguns povos (ou faziam). Também aí muitas seriam as repetições de nomes, pois muitas pessoas não conhecidas podem ser chamadas por "Bonita", "Alegre", "Charmosa". Assim como no caso dos nomes próprios usados correntemente, são vocativos que dizem respeito a quem os utiliza e não a quem se referem. São argumentos, não descrições.

Lembra então da origem do seu próprio nome: "Ernesto". Alguns dizem que foi em virtude do nome de seu avô, Ernesto. E conta a lenda que seu avô recebeu esse nome em homenagem a um personagem argentino muito antigo da política. Mas há muitos Ernestos que podem ser recordados... eis um mistério.

"Mistério!" - Lembra do enigmático convite sobre a mesa, mas não a tempo suficiente de evitar a cotovelada no copo de café, o melado sobre a folha e seus escritos.

Cerra os olhos em som de "Xiii", como quem prevê um desalinhamento terrestre, meteoros e eclipses. Sente a lágrima marrom do café quente descer e adocicar as bochechas.

"Merda."

Atrás, sem que perceba, se afasta um vulto que até então aguardava esperançosamente a leitura das pequenas linhas compostas em horas de ansiedade e falta de sono. Se afasta apenas fazendo perceber ao chão sua sombra. Mas, ao olhar para trás, Ernesto sequer chega a pensar que alguém estivesse ali em concentração sintônica com sua atividade de café monótona.

Abre a folha manchada e tem tempo de ler as letras que restam: "desejo"

"Mísero!" O acaso, esse mistério-maior, faz de todas as vontades mistérios solicitos e desejosos.... Faz do amor uma atividade de mudança e espera (e existem coisas mais chatas e importantes que essas?).

"A folha secará, as letras que restam também voltarão. Tudo a seu tempo." Por ora, se concentra na curiosa mudança que se operou na iluminação da mesa, de minutos para cá.

E também na palavra "chapéu".

domingo, 16 de março de 2008

Goeldi_ Solitário



(Noite)

(Um homem, sozinho, dirigindo em uma auto estrada)

(Os postes correm, suicidas, em direção ao fundo dos olhos)

(Seus olhos no retrovisor sem perceber o passado das curvas que deixa pra trás)

(Encosta sua cabeça no vidro do auto enquanto desacelera chegando ao semáforo)

- Suspiro.

(Alguém passa em frente ao carro, atravessando a rua. É um homem que assovia)

(Os olhos do motorista fitam-no)

- Merda. O homem existe, vive e morre sem sentido. Mesmo enxergando no escuro e respeitando as leis de trânsito.

(O pedestre termina a travessia, olha pra trás para ter certeza de que não deixou nenhuma perna sua fora da calçada)

(O motorista ergue a cabeça no automático, e segue acelerando)

(A câmera, que o acompanhava sentada no banco do passageiro, fica na calçada vendo o carro se afastar e as luzes do poste fixas dão o fim da cena)